Por que o processo do ofício importa?
Reflexão sobre atalhos e caminhos.
Pode não parecer devido à minha aparente incapacidade de sair desse tema por aqui, mas estou exausto do papo sobre IA porque ele sempre circunda punhetação de CEO. Basicamente o Sam Altman fala alguma coisa pra alavancar valor de mercado — esse cara que é um dos maiores charlatões dos últimos tempos — e a imprensa, profissionais de tecnologia e até pesquisadores descambam pra citar o que ele disse como “prova do que acontece ou do que é possível”.
Só que hoje eu quero refletir um pouco mais sobre o ofício de criar. É aqui também que reside meu principal argumento contrário ao uso de IA generativa como ferramenta de criação. É o motivo que faz com que eu escreva esse texto com minhas próprias MÕES e CÉLEBRO.
Quando você cria algo, você costuma achar que quer chegar em algum lugar. Você idealiza pra si um resultado final e mais ou menos concreto. Pode ser uma imagem que está na sua cabeça, uma história, uma moral que você quer passar. Você pode querer gerar um sentimento, ou mostrar ao mundo como você observa algo, ou refutar uma ideia que acha estapafúrdia, ou deixar a sua marca para a posteridade, ou ganhar a validação dos seus pais, ou impressionar seu interesse amoroso, ou mostrar pro seu adversário quem é o maioral, e assim em diante. Todo ato de criação precede de uma motivação latente.
Mas o ato de criar essa coisa em si não é um processo linear. Para além das muitas conjunturas internas e particulares que ocorrem no seu consciente e inconsciente, há até as variações biológicas. Pintar um quadro de uma árvore quando você está com dor de dente é diferente de quando você não está, e isso vai causar alterações no resultado final. Nossa experiência biológica também está inserida nas nossas criações porque elas representam nosso estado mental e impactam nosso emocional, e isso acaba indo parar invariavelmente naquilo que criamos. Surpresa: somos conscientes.
Se você pesquisar e ler sobre processo artístico e criatividade, verá inúmeros diferentes artistas, escritores e assim em diante falando sobre o impacto emocional em suas obras. Existe uma pré-concepção de que muitos artistas produziam “porque estavam deprimidos”, mas grande parte desses depoimentos atesta justamente o oposto: eles produziam nos breves momentos em que estavam bem o suficiente para poder criar. E aproveitavam isso pra representar e externalizar, muitas vezes, suas angústias.
Vamos tangibilizar um pouco isso pra sair do abstrato? Vamos:
Imagine que escrever é como andar em uma cidade. Você olha pro mapa dessa cidade e sabe onde está, e consegue definir onde você quer chegar. Às vezes, você quer chegar em um ponto central, bem específico, tipo uma cafeteria em uma rua específica. Outras, você quer chegar apenas em uma região e ver o que que tem por lá. Então você faz um traçado e decide guardar o mapa. Ou, sei lá, o mapa está em um ponto de ônibus, você nem tem como levá-lo.
Então você parte rumo a esse lugar. Você tem essas instruções na sua cabeça — ir reto, virar à esquerda daqui a três ruas, depois imediatamente à direita. Atravessar a rotatória. Pegar a Rua Passarinhos e andar mais um pouco por ela, até o posto de gasolina, quando você vai entrar novamente à direita.
Mas, nesse processo, você repara em outras coisas. Você vai conhecendo a cidade, vendo lugares que não conhecia. Vendo as fachadas que mudaram. Os novos prédios. Onde eram casas, pelo que você lembrava. Sente o cheiro da rua. A poluição dos carros misturado ao ar fresco de ruas arborizadas. Os novos negócios. Você passa por aquela mangueira, que ainda está lá, e ainda dá mangas.
Nesse percurso, você vai chegar de uma outra forma ao ponto em que havia especificado no mapa. Talvez, no meio do caminho, você até mesmo decida mudar um pouco os planos. Não ir exatamente para aquele lugar, deixar isso pra outro dia. Você pode descobrir coisas que nunca tinha imaginado.
Pra mim, o processo do ofício é dessa forma. Às vezes eu começo a caminhar rumo a onde pretendia ir e me animar o suficiente pra ir muito adiante. Outras vezes, percebo que estou cansado na primeira ladeira e decido parar por ali, deixar pra outro dia talvez. De repente, percebo que estou com uma dor no tornozelo que nem tinha percebido. Seja como for, ele frequentemente me faz descobrir ou pensar em alguma coisa que eu não pretendia inicialmente. E pouco tem a ver com chegar ao resultado final.
Agora, o que aconteceria se eu usasse IA para substituir esse processo?
Dentro da analogia aí de cima, eu teria um celular com um mapa GPS nas minhas mãos. Eu pediria um Uber, entraria no carro sem mal tirar os olhos do mapa no celular. Percorreria o caminho todo olhando pro destino no aplicativo do celular, e chegaria lá.
Chegando lá, beleza, teria chegado lá. Mas se me perguntassem, não saberia nem mesmo dizer como. Falaria que peguei um Uber e tava lá. Sem nem certeza da razão de que era onde queria estar.




é muito bom cruzar essa conversa com a questão do processo, porque o processo é muito romantizado. e acho que essa ~falsa promessa de solução da ia~ acaba pegando mais facilmente quem romantiza o processo. no sentido de achar que é só inspiração e motivação, e não uma porrada de outras coisas juntas -- pra não falar de técnica, né?